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Doença de Lyme

22 mar

O que acha de conhecer um pouco dessa doença não muito conhecida?

Vamos lá…!

Spirochaetales é um filo de bactérias que contém uma única classe e ordem. As espiroquetas são bactérias em forma de saca-rolhas que tendem a se mover com um movimento ondulante semelhante ao de uma hélice As principais cepas (espécies) das espiroquetas incluem o Treponema, a Borrelia, a Leptospira e o Spirillum. Muitas espécies de espiroquetas são agentes patogénicos nocivos ao homem.

 

Espiroquetas

Em resumo, as borrelioses constituem um grupo de doenças infecciosas causadas por bactérias do filo e classe Spirochaeta (espiroqueta) e do gênero Borrelia. A borreliose de Lyme, também denominada doença de Lyme, é uma doença infecciosa, não contagiosa, causada por espiroquetas pertencentes ao complexo Borrelia burgdorferi Sensu Lato e transmitida, mais frequentemente, por picada de carrapatos do gênero Ixodes. A doença apresenta quadro clínico variado, podendo desencadear manifestações cutâneas, articulares, neurológicas e cardíacas.

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Um pouco da história

Os primeiros relatos de casos de borreliose de Lyme são de Afzelius, em 1910, na Suécia, e Lipschutz, na Áustria, em 1914. Esses autores descreveram os primeiros casos de pacientes com placas eritematosas, únicas ou múltiplas, de crescimento centrífugo, aos quais denominaram eritema crônico migratório (ECM).

A partir disso, foram identificados novos casos de ECM em vários países europeus, principalmente, da Europa Central. Em 1958, Hollstrom obteve a cura de pacientes portadores de ECM utilizando penicilina procaína (combinação de antibiótico e anestésico, respectivamente), fato que o levou a postular a enfermidade como bacteriana.

Em 1977, na cidade de Lyme, estado de Connecticut, nos Estados Unidos, foram descritos vários casos de artrite em pacientes jovens com lesões cutâneas idênticas ao ECM. A associação de ECM e artrite foi denominada doença de Lyme, artrite de Lyme ou borreliose de Lyme (BL).

Lesão característica situada no tronco de um doente.

Apesar dos conhecimentos relativos ao quadro clínico e terapêutico da doença, o seu agente etiológico permaneceu desconhecido até 1982, quando Burgdorfer e colaboradores observaram a presença de espiroquetas no intestino de carrapatos da espécie Ixodes dammini, as quais foram denominadas Borrelia burgdorferi Sensu Lato. A associação entre B. burgdorferi e ECM foi consolidada com a identificação de espiroquetas em biópsias obtidas de lesões cutâneas.

Atualmente, além dos quadros cutâneos e reumatológicos, está bem estabelecido que infecções por Borrelia burgdorferi, sem tratamento adequado, podem evoluir, também, para comprometimentos cardíacos, neurológicos e oftalmológicos.

Lyme no mundo

A BL já foi diagnosticada em todos os continentes. Na Europa, é endêmica na Alemanha, Áustria, Suécia, Dinamarca, Noruega, Eslovênia, Polônia e frequentemente observada no Reino Unido, na Espanha, em Portugal, na Suíça, Croácia, Itália, República Tcheca e em outros países.No continente americano, é endêmica nos Estados Unidos onde é considerada um problema de saúde pública, ocorrendo, em média, 20.000 casos/ano; há relato de casos no Brasil, no México, Canadá, Chile, na Costa Rica, Colômbia e na Venezuela.

Lyme no Brasil

No Brasil, os primeiros três casos de EM foram relatados em 1987 por Talhari e colaboradores, em pacientes da região metropolitana de Manaus, estado do Amazonas. Posteriormente, outros 12 novos casos de EM foram diagnosticados na mesma cidade. Em 1992, foram descritos os primeiros casos de pacientes brasileiros com manifestações articulares associadas à infecção por B. burgdorferi. Diante da impossibilidade de identificação do agente etiológico, esses casos passaram a ser denominados borreliose-símile (Borrelia-like).

Em 2010, Santos e colaboradores realizaram pesquisas e exames em 270 pessoas na cidade de Manaus. 7% dos soros avaliados apresentaram resultados positivos para a presença de anticorpos específicos para B. burgdorferi. Esses resultados que levaram a confirmação da presença de infecção por B. burgdoferi na região amazônica.

Agente etiológico, reservatórios e vetores

O agente etiológico da borreliose de Lyme é a Borrelia burgdorferi Sensu Lato. O complexo Borrelia burgdorferi Sensu Lato engloba 14 espécies. Dessas 14 espécies, quatro estão associadas com a doença em questão:

a) Borrelia burgdorferi Sensu Stricto

b) B. garinii

c) B. afzelii

d) B. spielmanii.

 

B. burgdorferi Sensu Stricto, agente etiológico da DL.

 

Nos Estados Unidos, a B. burgdorferi Sensu Stricto é a única espécie encontrada. Por outro lado, na Europa, além da B. burgdorferi Sensu Stricto, são também encontradas B. garinii, B. afzelii B. spielmanii, esta última associada, recentemente, a casos de EM na Hungria.

Os principais vetores da B. burgdorferi Sensu Stricto são carrapatos do gênero Ixodes (I. dammini, I. scapularis e I. pacifus).

 

Carrapato do gênero Ixodes, vetor transmissor da doença

Os carrapatos do gênero Ixodes infectam-se durante sua refeição sanguínea em animais portadores da B. burgdorferi. Nos Estados Unidos, os principais reservatórios são os cervos de cauda branca e os camundongos. Taxas elevadas de anticorpos específicos para a tal bactéria já foram encontrados em gado bovino, caprino e em cães, o que sugere que esses animais também possam atuar como reservatórios. No Brasil, os reservatórios ainda não foram identificados, embora já tenham sido detectados anticorpos anti-B. burgdorferi em cães, marsupiais, equinos e búfalos, sem, contudo, ter sido explicada a participação desses animais na transmissão da doença.

A duração média do ciclo de vida dos carrapatos varia de um a três anos e seu desenvolvimento inclui quatro estágios evolutivos: ovo, larva, ninfa e adulto. Em todos os estágios evolutivos, os carrapatos podem estar infectados, embora as ninfas e os carrapatos adultos sejam os principais transmissores da B. burgdorferi.

Transmissão

As espiroquetas alojam-se nas microvilosidades e espaços intercelulares do epitélio do intestino médio dos carrapatos e sua transmissão ocorre durante a ingestão do sangue, pela inoculação de saliva infectada. O homem, na maioria das vezes, adquire a B. burgdorferi pelas picadas das ninfas destes carrapatos. Para que ocorra a infecção, estima-se que o carrapato necessite ficar aderido à pele, em média, por um período superior a 12 horas. As picadas dos carrapatos são indolores, o que justifica o fato de muitos pacientes não recordarem terem tido contato com carrapatos.

 

Carrapato cheio de sangue.

A infecção pela B. burgdorferi pode evoluir para a cura espontânea ou para manifestações dos estágios iniciais da borreliose e/ou quadros tardios, com distúrbios neurológicos, cardíacos, oftalmológicos, articulares e cutâneos.

Ciclo de transmissão da Borrelia

 

Sintomas

Steere, em 1989, classificou a doença em três estágios:

  • 1º estágio ou fase aguda: com lesões predominantemente cutâneas;
  • 2º estágio: no qual podem ocorrer manifestações articulares, neurológicas, cardíacas e oftalmológicas;
  • 3º estágio: com quadros reumatológicos, neurológicos, oftalmológicos e cutâneos crônicos.

A principal manifestação do estágio inicial é o Eritema Migratório (EM). Clinicamente, manifesta-se por lesões avermelhadas (eritemas), sejam elas manchas ou lesões elevadas (pequenos caroços), que aumentam de tamanho, formando placas isoladas ou múltiplas, com bordas descontínuas e centro claro (geralmente no local da picada), arroxeado e/ou descamativo.

Apesar de o EM poder manifestar-se em qualquer parte externa do corpo, observa-se predominância nos membros inferiores, superiores e na face.

Geralmente, o EM é assintomático, mas coceira ou ardor podem ocorrer em alguns casos.

De forma geral, o quadro inicial caracteriza-se por oligoartrite soronegativa, com edema (manchas), dor, principalmente nas grandes articulações, como, por exemplo, nos joelhos. Mais tarde podem ser observadas artrites crônicas e erosivas, que, se não tratadas, levam à destruição progressiva da cartilagem e do osso. Nos pacientes europeus, as manifestações articulares são menos frequentes e os sintomas são mais discretos.

Várias manifestações oftalmológicas associadas à infecção por B. burgdorferi foram descritas, sendo mais encontradiças em pacientes europeus. As mais comuns são conjuntivites, neuropatia do nervo óptico, iridociclite e pan-oftalmite.49 Podem ocorrer, também, diplopia, com paralisia do V e do VI pares de nervos cranianos, e alteração da mobilidade ocular. Casos de anormalidades pupilares, do tipo pupila de Argyll-Robertson e síndrome de Claude Bernard-Horner, também foram relacionados à infecção por B. burgdorferi. Também se podem observar inflamação intraocular crônica e miosite intraorbital. É comum as alterações oftalmológicas crônicas se associarem ao comprometimento neurológico.

Na fase tardia da borreliose, pode surgir alteração cutânea característica, denominada acrodermatite crônica atrófica (ACA) ou doença de Pick-Herxheimer. A ACA associa-se, em geral, à infecção por B. afzelii, sendo mais frequentemente diagnosticada na Europa. Clinicamente, inicia-se com placa eritematosa, evoluindo com atrofia cutânea e vasos sanguíneos bem proeminentes, localizando-se, em particular, nos membros inferiores. A face e o tronco também podem ser afetados.

Síndrome pós-Lyme

Este termo é usado para designar uma série de sintomas que aparecem mesmo após adequado tratamento com antibióticos para a Doença de Lyme (DL). Os principais sintomas são fadiga crônica, dores musculoesqueléticas crônicas, cefaleia, sonolência, irritabilidade e distúrbios cognitivos (perda de memória, dificuldade de concentração e de raciocínio, diminuição da capacidade de julgamento, entre outros). Entre todos os sintomas, os de fadiga crônica são os mais relacionados com a Borrelia crônica, sendo referidos como fadiga profunda e extremamente debilitante.

A causa da DL crônica ainda não está totalmente esclarecida, embora vários estudos apontem como principal fator a infecção persistente por B. burgdorferi, a despeito do tratamento correto da doença. Alguns autores postulam que essas manifestações seriam decorrentes de fenômenos inflamatórios e autoimunes, desencadeados pela persistência da infecção, não pela presença em si do agente infeccioso, de modo semelhante ao que ocorre na sífilis. Isso justifica o fato de muitos pacientes com BL crônica não responderem a esquemas prolongados com antibióticos.

 

Diagnóstico

O diagnóstico da BL baseia-se nos aspectos epidemiológicos, clínicos e laboratoriais. O diagnóstico laboratorial fundamenta-se nas provas sorológicas (detecção de anticorpos específicos) e/ou no encontro do agente etiológico. Além da sorologia, são importantes os exames histológico e imunoistoquímico, a PCR e cultura.

A detecção de anticorpos IgM ou IgG anti-B. burgdorferi é comumente utilizada para o diagnóstico sorológico e a investigação epidemiológica. Os principais exames sorológicos são o ELISA (enzime-linked immunosorbent assay) e a imunofluorescência indireta (IFI). Esses exames, porém, podem apresentar resultados falso-positivos, em vista da reação cruzada com outras enfermidades, tais como colagenoses, leishmaniose e sífilis. Assim, em áreas não endêmicas, o diagnóstico definitivo necessita da realização de exame confirmatório, que demonstre a presença do agente.

 

Tratamento

O tratamento da BL é realizado de acordo com o estágio da doença.

Apesar de todos os estágios da doença de Lyme responderem aos antibióticos, o tratamento precoce previne mais adequadamente as complicações. Nos estágios I ou II, os antibióticos amoxicilina, cefuroxima, eritromicina, doxiciclina ou macrolidio podem ser administrado pela via oral. Na doença avançada, grave ou persistente, são administrados antibióticos pela via intravenosa. Na fase III, utiliza-se ceftriaxona. Os antibióticos também ajudam a aliviar a artrite, embora possa ser necessário prolongar o tratamento por até 3 semanas. A aspirina ou outros antiinflamatórios não esteróides aliviam a dor das articulações.

 

Profilaxia

A profilaxia nos humanos deve ser feita com o uso de roupas claras cobrindo grande parte da pele e também, usando botas de cano alto quando for andar em campos ou matas. Quando for encontrado carrapato no corpo, deve ser retirado adequadamente. O controle dos roedores também é uma medida que deve ser tomada, pois eles são reservatórios da doença. Aliás, o controle de todos os reservatórios da doença é muito importante. Outro ponto importante é realizar uma modificação no ambiente onde vive o carrapato, passando vassoura de fogo, corte da grama e introdução de predadores destes ácaros.

 

Curiosidade

Natalino Yoshinari

Natalino Hajime Yoshinari é um professor e pós-doutor pela Tufts School Of Medicine (1989) que atua principalmente nos seguintes temas: Artrite, Anticorpos Anti-Borrelia, Fluído Sinovial.

Em 2006, quase 200 amostras laboratoriais de pessoas suspeitas de terem contraído a enfermidade nas redondezas de Nova Venécia, região montanhosa no Noroeste do Estado do Espírito Santo. Foi ele quem notou uma similaridade entre o que foi coletado no ES e a doença de Lyme, encontrada no Hemisfério Norte. Os altos índices encontrados, motivaram o pesquisador e sua equipe a esclarecer o assunto e fazer uma pesquisa de campo. Foram coletadas amostras de carrapatos e de sangue dos moradores suspeitos.

As pesquisas do especialista indicam que alguns aspectos da doença encontrados no Brasil são peculiares e não conferem exatamente com a Doença de Lyme tradicional. É o caso da bactéria causadora da enfermidade (chamada de borrélia), que aqui no País se apresenta de forma diferente. O motivo para isso, segundo  Yoshinari, são os carrapatos brasileiros, que são diferentes dos encontrados no Hemisfério Norte.

No entanto, outras características da moléstia, como a sorologia, os sintomas e o modo de contração são muito similares ao Lyme norte-americano e europeu. Essas peculiaridades fizeram com que o médico batizasse a enfermidade encontrada aqui de Doença de Lyme Brasileira.

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Não utilize antibióticos se não recomendados pelo médico.

Ah, e não se esqueça. A utilização de antibióticos quando não receitados pelo médico, podem trazer sérias consequências. As bactérias podem se fortalecer, tornando-se super bactérias, o que dificultaria o tratamento, já que elas se tornariam resistentes ao antibiótico.

 

As fontes de pesquisa encontram-se nos comentários do post.

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